Tendências da Gestão em Saúde: Transformação Digital, Força de Trabalho e Eficiência. Existe solução para a crise? 

O setor enfrenta um momento bastante desafiador, oriundo da crise global da força de trabalho na saúde, transformação digital, transição etária, novas expectativas dos profissionais e usuários, incorporação de novas tecnologias e uma intensa pressão para operar de maneira mais eficiente à menores custos.  

Na gestão em saúde, direcionar a força de trabalho para que tenham autonomia na tomada de decisão, levando em consideração o propósito organizacional e os objetivos definidos, é um dos principais aspectos a se realizar. Para tanto, os líderes devem ter uma atuação baseada em valores, empatia e conexão, sem deixar de lado o foco no desempenho, saúde, bem estar e no comprometimento com seus profissionais, sendo este um componente crítico para o alcance dos melhores resultados e sucesso nos negócios. 

Por sua vez, os gestores têm a responsabilidade de integrar todas as demais forças que moldam o contexto e o ambiente que suas organizações competem, mitigando riscos, trazendo parcerias, identificando oportunidades e colocando as pessoas certas para exercer a posição que devem ocupar, de tal modo que o negócio seja economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente responsável. 

Ao analisar o processo histórico e a evolução do setor no Brasil é possível identificar muitas das razões pelas quais temos um sistema descentralizado, com visão intervencionista, foco no agravo, modelo exclusivamente voltado ao nível terciário e pouca atenção a força de trabalho. Para se ter uma ideia, até o início do século passado os trabalhadores não possuíam qualquer direito à saúde. Foi em 1920 que um movimento com pequenos grupos de categorias profissionais criou as Caixas de Aposentadoria e Pensões – CAPs, onde existia o fornecimento de medicamentos, cuidados em saúde familiar, aposentadoria, pensão e benefício funerário.  

Nos anos 30, as CAPs ja eram 47 e no primeiro ano do governo de Getúlio Vargas foram fundidas, mais precisamente em 1933, com a criação dos Institutos de Aposentadoria e Pensões – IAPs, autarquias por categorias profissionais, que posteriormente, no ano de 1966, acabariam sendo novamente fundidas dando origem ao Instituto Nacional de Previdência Social – INPS – que englobou todos os profissionais com carteira assinada e que recebiam assistência médica dos serviços do INPS, hospitais e ambulatórios médicos. 

Com o crescente processo de urbanização e desenvolvimento das cidades nos anos 50 e 60, as despesas com assistência médica aumentaram substancialmente, passando de 7,3% do total geral das despesas da previdência em 1949, para 19,3% em 1960 e 24,7% em 1966. Esse modelo era bastante heterogêneo, visto que cada IAP possuía seus próprios serviços e hospitais.  

Em 1967, durante o regime militar e um ano após a criação do INPS, o decreto de Lei 200 estabeleceu para o Ministério da Saúde, criado em 1953, a formulação e coordenação da política nacional de saúde, atividades médicas ambulatoriais e ações preventivas em geral no controle de medicamentos, alimentos e pesquisas médico-sanitárias.  

Com o INPS tem-se a celebração de contratos de convênios e prestação de serviços com médicos e hospitais em regime de pagamento por serviços. No final dos anos 60, o Ministério da Saúde teve seu orçamento reduzido de 8% para 0,8%, o que trouxe ao início dos anos 70 o ressurgimento de epidemias consideradas controladas e uma piora acentuada das condições de saúde da população. Em 1974 foi criado o Ministério da Previdência e Assistência Social e o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Social para ampliação de hospitais da rede privada através de empréstimos subsidiados pelo governo. Nesta época, o crescimento no número de leitos hospitalares privados foi exponencial, passando de 74,5 mil em 1969 para cerca de 350 mil em 1984. 

Em 1975 foi instituído o Sistema Nacional de Saúde, que estabeleceu a sistemática do campo de ação dos setores públicos e privados para o desenvolvimento das atividades de promoção, proteção e recuperação da saúde. Coube ao Ministério da Previdência a atuação da medicina curativa e ao Ministério da Saúde o da medicina preventiva. Passados três anos, em 1978 foi criado o Instituto de Assistência Médica da Previdência Social – INAMPS e em 1981 o Conselho Consultivo de Administração da Saúde Previdenciária – CONASP, ligado ao INAMPS para a realização de auditorias contra fraudes e fiscalização das contas hospitalares dos serviços credenciados. 

A década de 80 é marcada por uma grande crise financeira do setor da saúde. Na ocasião o sistema privado era responsável por cerca de 31 milhões de brasileiros, o que correspondia a aproximadamente 22% da população total. Em 1983, com a criação das Ações Integradas de Saúde – AIS, a ideia foi trazer um modelo assistencial que incorporasse o setor público, procurando integrar ações curativas, preventivas e educativas, que teve como princípios a integração entre as ações e instituições. Nesse período o setor previdenciário adota o mecanismo de compra e pagamento por serviços prestados por estados, municípios, hospitais filantrópicos, públicos e universitários.  

Em 1986, um ano após o fim do regime militar, foram lançadas na VIII Conferência Nacional de Saúde as bases da reforma sanitária e do Sistema Único Descentralizado de Saúde – SUDS. Em 1988 com a nova constituição e com as leis orgânicas da saúde 8.080 e 8.142 de 1990 temos o surgimento do SUS sob os princípios da universalidade, integralidade de assistência, equidade, descentralização, regionalização, hierarquização e participação dos usuários. Desde então o sistema torna-se único e nacional, integrando os serviços de saúde públicos e privados, em regime de contrato ou convênio, prevendo inclusive a atuação da saúde privada de forma lucrativa. Nesse período, o Ministério da Saúde – MS editou diversas normas operacionais de funcionamento do SUS que envolveram formas de financiamento e transferências de recursos financeiros entre as unidades federais, estaduais e municipais, como formas de planejamento das ações em saúde e a própria sistemática do controle social da sociedade. 

No ano de 1998, a Lei 9.656/98, regulamentou os planos e seguros de saúde e em 2000, pela Lei 9.661/2000, é criada a Agencia Nacional de Saúde Suplementar – ANS, com o objetivo de organizar a saúde privada supletiva, que não apresentava qualquer parâmetro de regulação governamental ou cobertura sob as regras do convênio, sem nenhuma padronização, limitações de benefícios, apólices com os benefícios e valores de serviço sem normatização, relação entre plano de saúde e rede de atendimento sem regras ou formalização, apresentando baixa estabilidade e confiabilidade do sistema do ponto de vista financeiro.  

O surgimento da ANS sacramenta a visão de suplementaridade e não de complementaridade com o SUS. A agência, constituída com a missão de promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, pela regulação e fiscalização do setor, das relações das operadoras setoriais com prestadores de serviços de saúde e com usuários de planos de saúde, para o desenvolvimento das ações de saúde no país, criando dessa forma grandes lacunas para a discussão sobre direito do consumidor, saúde suplementar e SUS, “dupla porta”, judicialização da saúde, ressarcimento do SUS, acesso, universalidade da assistência, dentre outros, mostrando de maneira bastante clara  a complexidade do sistema, suas relações, interconexões, dificuldade de previsibilidade e o impacto que qualquer ação traz dentro de todo seu contexto. 

Enquanto o atual modelo tem seu foco baseado predominantemente na produção ao invés de uma maior efetividade com a criação de melhores ambientes para a prática profissional, bem estar, saúde física e emocional da força de trabalho e envolvimento do usuário no cuidado, continuaremos expostos a riscos e a ocorrência de erros evitáveis, trazendo danos muitas vezes irreversíveis e irreparáveis ao paciente, profissionais, clima organizacional e sistema. 

Temos pela frente o maior desafio das últimas décadas que é aprimorar a gestão da saúde e torná-la capaz de trazer melhores resultados para o negócio ao mesmo tempo que seja sustentável frente a todas as novas demandas. Esse novo contexto traz à tona a importância de se trabalhar um modelo de gestão não linear, com maior consciência do sistema, fidelização dos profissionais, análise qualitativa de dados e cenário para a tomada de decisão assertiva e melhor capacidade de adaptação.  

A inclusão e participação dos principais atores do sistema (agência reguladora, operadoras, seguradoras, organizações e serviços de saúde, força de trabalho, usuários e comunidade) deve ter como objetivo equilibrar e integrar os diferentes níveis de atenção, saindo do modelo hospitalocêntrico e trazendo maior interdependência na criação de programas de promoção à saúde,  prevenção de doenças e monitoramento de agravos, com foco na qualidade e segurança da assistência prestada e com novos modelos de remuneração, baseados na efetividade, transparência e geração de valor.  

Para integrar e desenvolver o conhecimento da força de trabalho na saúde é preciso levar em consideração a complexidade do sistema, as estratégias organizacionais e a construção de uma cultura inovadora, adaptável e de qualidade, entendendo as expectativas dos profissionais e aproximando a estratégia da operação para que sintam-se parte do processo, sejam valorizados e estejam preparados para o enfrentamento dos desafios que estão por vir. 

Publicado por Dr. Bruno Cavalcanti Farrás, médico, cofundador e CEO da BFarrás Health Solutions. Executivo com experiência em posições de liderança, atuação estratégica, projetos de inovação, transformação digital, integração de redes de atenção à saúde, desenvolvimento de relacionamento com entidades nacionais e internacionais, além de forte envolvimento e conhecimento dos principais grupos, operadoras, instituições de saúde, agências reguladoras e sociedades médicas  do nosso país. Amplo conhecimento no planejamento e gestão de serviços de saúde, implantação de sistemas de gestão da qualidade, planejamento estratégico, processos críticos, gestão de riscos, gestão de corpo clínico, desenvolvimento de times de alta performance e protocolos médicos assistenciais.

Na BFarrás Health Solutions trazemos soluções de excelência para uma gestão eficaz e sustentável. Trabalhamos quatro frentes: Assessoria & Consultoria, Health Academy, Mentoria Profissional e Workshops.

Quer saber mais? Cadastre-se aqui.

Clique aqui e conheça nossa atuação.

Siga nossas mídias: instagram, youtube, spotify e linkedin.

Cadastre-se para acessar esse conteúdo.